Enquanto o mercado contábil discute alíquota de IBS, período de transição e split payment, existe um problema silencioso, instalado há anos dentro de praticamente todo escritório e todo departamento fiscal do Brasil, que vai decidir quem vai sofrer pesado a partir de 2026 e quem vai atravessar a Reforma com tranquilidade.

E esse problema não está em nenhuma tabela de transição. Está no cadastro.

A pergunta que ninguém faz antes de calcular imposto

Antes de qualquer sistema calcular CBS, IBS ou Imposto Seletivo corretamente, ele precisa de uma coisa que parece banal: saber exatamente o que está sendo vendido, para quem, em qual operação, sob qual classificação fiscal. Parece óbvio. Mas eu pergunto: você já auditou, item por item, o cadastro de produtos e serviços da sua empresa ou dos seus clientes nos últimos 12 meses?

Se a resposta for não — e estatisticamente ela quase sempre é não — existe uma boa chance de que o cadastro que sustenta toda a operação fiscal de quem você atende esteja carregando erros que hoje passam discretos, mas que sob as novas regras vão deixar de ser discretos. Vão virar glosa, autuação, crédito negado, nota rejeitada.

Por que o cadastro era "perdoável" até agora e por que deixou de ser

No sistema atual, um cadastro mal feito é amortecido por décadas de jurisprudência, de interpretação flexível, de margem de erro tolerada pela própria complexidade caótica do sistema tributário brasileiro. O cadastro errado convivia, disfarçado, dentro de uma bagunça maior.

A Reforma Tributária retira essa cortina de fumaça. Com apuração mais automatizada, crédito amplo vinculado aos códigos que definem a situação tributária e o detalhamento legal de cada item, e fiscalização cada vez mais orientada por cruzamento eletrônico de dados, o cadastro deixa de ser um detalhe operacional e passa a ser a fundação inteira do prédio fiscal. Fundação rachada, sob carga nova, não aguenta.

E aqui está o ponto que pouca gente está dizendo em voz alta: a maior parte dos escritórios e departamentos fiscais não tem ideia do tamanho do problema que está dormindo dentro do próprio cadastro. Porque cadastro errado não dá erro na hora em que é criado. Dá erro depois, quando o cenário muda — e o cenário está mudando agora.

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O risco que ninguém está monitorando

Pensa no volume. Uma empresa de porte médio pode ter centenas, às vezes milhares, de itens cadastrados — produtos, serviços, NCMs, CFOPs, naturezas de operação — acumulados ao longo de anos, por pessoas diferentes, sob critérios diferentes, sem revisão estrutural. Cada item desses é uma porta. E na transição da Reforma, cada porta mal fechada é uma exposição: crédito que não deveria existir, alíquota equivocada, classificação que não resiste a um cruzamento de dados.

Multiplica isso pela velocidade com que a fiscalização eletrônica vem evoluindo no Brasil. Não é mais uma questão de "se" vai ser identificado. É uma questão de quando — e de quanto vai custar até lá.

O outro lado da moeda que quase ninguém está vendo

Agora vem a parte que eu, depois de 25 anos olhando essa profissão por dentro, considero a mais subestimada de toda essa história: o que para o cliente é risco, para o contador é oportunidade.

Pensa bem. Se o cadastro virou a fundação de todo o sistema fiscal pós-Reforma, e se praticamente nenhuma empresa fez uma revisão estrutural disso nos últimos anos, então existe, dentro da carteira de clientes de qualquer escritório, um serviço que ainda não está sendo vendido — e que o cliente vai precisar comprar, com ou sem você.

Não é um serviço operacional de baixo valor, do tipo que se cobra por hora e se entrega por obrigação. É um serviço estratégico, de diagnóstico, que protege o cliente de uma exposição que ele nem sabe que tem — e isso, no mercado contábil, tem nome: vira faturamento recorrente, não pontual. Vira contrato, não tarefa.

Eu não vou explicar aqui como estruturar esse serviço, nem qual é o passo a passo de uma revisão cadastral bem feita — esse não é o objetivo deste texto. O que eu quero deixar registrado é a constatação: enquanto a maioria dos escritórios está discutindo se vai sobreviver à Reforma, alguns já entenderam que ela é a maior porta de entrada de receita nova que o mercado contábil vê em décadas. E essa porta está literalmente dentro do cadastro que ninguém está olhando.

O ponto de reflexão que eu deixo com você

Se o cálculo do imposto na Reforma vai depender, na origem, da qualidade do cadastro que sustenta cada operação — e se a maioria dos escritórios nunca fez uma auditoria estrutural desse cadastro — então a pergunta que realmente importa não é "estou pronto para a nova alíquota?".

A pergunta é: Eu sei, com certeza, o tamanho do passivo que meu cadastro atual está escondendo?

Quem não souber responder isso com segurança até a Reforma entrar em regime pleno não vai descobrir o problema no seu próprio tempo. Vai descobrir no tempo da fiscalização — e aí o custo já não é mais de revisão. É de autuação.

Esse e outros pontos pouco discutidos sobre os bastidores reais da Reforma Tributária serão falados durante a Maratona da Reforma Tributária, 3 dias de evento gratuito, 20, 21 e 22 de julho, com presença confirmada.

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